SEMINÁRIO ANALISA CONJUNTURA E APONTA DESAFIOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA

SEMINÁRIO ANALISA CONJUNTURA E APONTA DESAFIOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA

SEMINÁRIO ANALISA CONJUNTURA E APONTA DESAFIOS PARA A POPULAÇÃO NEGRA

A Sede do Sindicato recebeu, no sábado (03), um importante número de trabalhadores e trabalhadoras interessadas em participar dos debates do VIII Seminário da Questão Racial promovido pela entidade.

Na abertura, os dirigentes Alexandre, Secretário Geral, e Josemar, responsável pela pasta da questão racial, deram as boas-vindas aos participantes e destacaram que a atividade já é uma tradição do Sindicato. Também frisaram a importância do debate num momento em que, segundo eles, “ninguém mais se esconde para dizer que não quer mais pegar o elevador com um negro, ou destratar um artista, ou matar, perseguir a juventude negra e espancar por causa da cor da pele”. E, alertaram, enfrentar isso exige uma luta muito forte e coletiva, por isso debates como estes são tão importantes. Também frisaram que Bolsonaro, um declarado racista, homofóbico e machistas, perdeu a eleição, mas o bolsonarismo continua vivo e precisa ser combatido. “Temos que luta, não vamos baixar a nossa cabeça”, pontuaram.

UMA LUTA DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Luiz Mendes, Mestre em Educação e do Coletivo de Igualdade Racial do Sindjus/RS e primeiro palestrante a falar, lembrou a caminhada do povo negro em importantes e diversos espaços de luta, e destacou a ação dos trabalhadores de Correios, uma categoria com grande presença de homens e mulheres negras e que tem dado exemplo de luta. “A categoria de Correios tem sido massacrada governo atrás de governo, e temos acompanhado a luta de todos no sentido de garantir que o Correios continue uma estatal e não seja privatizada, por isto, debater o racismo no local de trabalho é tão importante para uma categoria que diariamente tem que lutar contra o racismo estrutural e institucional”, disse ele.

Segundo Mendes,  a luta contra o racismo é uma luta da sociedade brasileira, a mesma sociedade que dizimou o povo indígena, que escravizou homens e mulheres africanos trazidos para cá. “O Brasil tem uma dívida com o povo negro brasileiro, que praticamente construiu este país e o Correios é parte desta construção”, acrescentou, destacando que a luta contra o racismo impõe conhecer a própria história. Para ele, também é preciso desvincular o racismo da luta das minorias. “Não somos minoria, somos mais de 50% da população brasileira”, apontou. Integrante do Judiciário estadual, Luiz revelou que no poder judiciário, os negros representam menos de 3% dos funcionários e, entre os magistrados, o percentual é ainda menor, menos de 1%. “Enquanto não mudarmos isso, vamos continuar sendo chamados de minoria”.

BOLA QUADRADA

De acordo com ele, os avanços que vinham sendo obtidos, desmoronaram fortemente com Bolsonaro, cujo governo queria manter e fortalecer os espaços de privilégios para uma elite branca, desconstituindo as cotas raciais. Para Luiz, não há que se falar em cotas sociais.. “Quem foram jogados nas ruas foram os negros, foram proibidos de estudar em escolas públicas até 1930, com inúmeras leis criadas para que os negros permanecessem nas periferias, e que não ocupassem os espaços que mereciam”. Então, apontou, nosso desfio para o próximo período é mudar isso, uma luta que é de negros e não negros, mas da sociedade brasileira.

Luiz reitera que é difícil avançar. “A luta contra o racismo é como uma bola quadrada, e exige muito esforço para avançar alguns passos. Não podemos esquecer que no RS tivemos a forma mais cruel de trabalho dos negros escravizados, que foi nas charqueadas. Já conseguimos avançar bastante, mas ainda há muito a vencer”.

Ele finalizou informando que o Sindjus/RS enviou, em novembro, pedido para a Assembleia Legislativa para que seja garantida a Semana da Consciência Negra Estadual, como forma de garantir a ampliação da discussão efetiva sobre a consciência negra. Também destacou a importância da Marcha do dia 20 de novembro, reunindo mais de 50 entidades que participaram dos debates e da construção da Marcha. “A ideia é que o movimento continue esta caminhada. Não temos que lutar contra o racismo só em novembro, nas de janeiro a janeiro, porque todos os dias o racismo bate à nossa porta”, finalizou.

O CAPITALISMO FAZ COM QUE OS NEGROS SEJAM OPRIMIDOS

Segunda palestrante do dia, a representante do Quilombo Raça e Classe, formada em Ciências Sociais pela PUC, mestre e doutora pela UFRGS, com especialização em Movimentos Sociais, Trabalho e Educação, Vera Rosane, iniciou sua fala destacando que a categoria ecetista tem que ter orgulho da sua luta. “O Correios tem sido massacrado por todos os governos que passaram, o que tem a ver com a sociedade capitalista, com governos que destroem os serviços públicos e querem privatizar tudo. E os trabalhadores/as de Correios fazem lutas aguerridas contra estes desmandos, que tem sido exemplo para todos os trabalhadores do País”, disse ela.

Vera continuou explicando que os trabalhadores, brancos e negros, precisam entender que por trás de tudo isso está o capitalismo, que faz com que os negros sejam oprimidos e vilipendiados todos os dias e lembrou que os brancos também sofrem a mesma opressão pelo capital com o desmonte do trabalho. “Para podermos falar sobre a questão dos quilombos e necessidades de luta do movimento negro, da luta negra e perspectivas para o próximo período, é importante falar da classe trabalhadora, brancos e negros. É muito importante que consigamos um dia juntar todas as lutas, homens, mulheres, LGTBs, quilombolas, trabalhadores/as de todas as categorias e fazer com que o país pare. Precisamos parar o Brasil para entender que a discriminação, o machismo, o desmonte da luta, não tem a ver com o indivíduo, mas tem a ver com que o sistema capitalista quer para todos os trabalhadores. Esta unidade precisa ser construída”, apontou ela.

MÚLTIPLOS CONHECIMENTOS E SABERES

Ela lembrou, também, que falar de quilombos é falar da condição que os negros foram trazidos sequestrados, da África, um continente com múltiplos conhecimentos e muitos saberes, para construir a riqueza de todos os países, para construir a base de outras sociedades, para construir o capitalismo. “Os companheiros não negros precisam saber que ninguém é melhor nem pior, que é o racismo e a discriminação que fazem isso, a gente precisa entender que todos somos iguais e que pertencemos a mesma luta. A luta que os trabalhadores/as de Correios têm, é a mesma que temos na Universidade pela educação pública, na saúde, coo ficou demonstrado com as mortes peal Covid-19, que os desafios colocados para negros e negras extrapolam a porta do banco, que quando a gente entra ela bipa pela nossa cor e é isto que precisamos entender e derrotar. E quando entendemos isso, é fundamental que consigamos perceber que falar sobre os desafios da questão racial no nosso país e no mundo, representa repudiar aquele pé na garganta que mata homens negros, como Floyd, João Alberto, um trabalhador numa câmara de gás pela polícia, ou nos morros ondes nossos filhos estão sendo assassinados”, acrescentou, informando que no Brasil, 150 jovens negros por dia são perseguidos apenas por serem negros.

O TEMA DO RACISMO NÃO PODE SER DISCUTIDO SEPARADAMENTE

Terceira palestrante a falar, Tamires Filgueira, Coordenadora Geral da ASSUFRGS Sindicato, Coordenadora-Adjunta do NEABI-UFRGS, destacou que no governo Bolsonaro, disse, teve um aprofundamento dos ataques aos trabalhadores, em crises sentidas no dia a dia, com aumento do cenário da fome, alimentos mais caros, mas onde os ricos ficaram mais ricos, e, para ela, esta política tem tudo a ver com o racismo. “Os negros são a maioria da classe trabalhadora e o tema do racismo não pode ser discutido separadamente, discutir racismo é discutir política, economia, saúde, meio ambiente, e a gente tem que continuar a luta para derrotar o bolsonarismo, que continua nas ruas, disseminando o ódio, as ideologias contra os trabalhadores, a população negra e combater isso diariamente”.

Sobre qual o papel da população negra no próximo período, arrisca a resposta: “Não será fácil, como não vem sendo há muitos anos. A gente precisa saber que o nosso campo de atuação e de reivindicações para derrotar o racismo é organização, a consciência de classe e estar nas ruas mobilizados e isto o Sindicato do Correios tem demonstrado que tem lado e que sabem fazer. Nossa tarefa é de estar atento, independente do governo, e estar junto nas mobilizações necessárias, apoiar as medidas progressistas, mas estar mobilizado e empurrar o governo para a esquerda, para o lado de povo e combater as políticas que vêm de encontro aos nossos interesses”, finalizou.

A segunda parte do encontro tratou de temas jurídicos relacionados à questão racial.

A Dra. Patrícia da Silveira Oliveira, mestranda em Direito UNISINOS, Especialista em Direito Civil e Processo Civil, Defensora Dativa, Conselheira Seccional da OAB/RS e Vice-Presidente da Comissão da Mulher da ABA-RS falou sobre a legislação e conceitos de raça, racismo, injúria racial, racismo estrutural e institucional, tipos de discriminação e tipificação do crime de injúria racial, entre outras questões.

Segundo ela, é preciso entender a escravidão, onde os escravos eram desumanizados, as mulheres tinham seus corpos objetificados e eram reprodutoras de novas pessoas a serem escravizadas. A média de vida de um escravo era 35 anos, mas morriam com a aprecia de 75 anos de idade. “Muitas das pessoas escravizadas eram reis e rainhas, mas todos perdiam suas identidades na trajetória da escravização. Trago esta história para lembrar que a escravidão foi um processo cruel de exploração do trabalho negro, considerado um ser inferior, que perdurou por mais de 400 anos. E com a abolição, estas pessoas foram libertadas realmente?”, provocou ela. Patrícia fez, ainda, questão de frisar o erro de chamar negros de descendentes de escravos. “As pessoas com a cor da pele preta não são descendentes de escravos, são descendentes de seres humanos que foram escravizados”, alertou.

De acordo com a especialista, é urgente que cesse para sempre a servidão do homem pelo homem. “Pós abolição, vimos que a escravidão marcou a história. Os negros não eram sujeitos de direito, não houve projeto de inserção do povo negro na sociedade brasileira. Foram jogados na sociedade para viver nas periferias e muitos continuaram casas dos senhores de engenho, as mulheres passaram de mucamas e a empregadas domésticas como a gente vê até hoje. Muitas tiveram uma caminhada solitária, muitas vezes matriarcas, sem amparo algum. Nestes anos todos, foram muitos os movimentos, mas somente em 1948 vieram iniciativas para promover o direito fundamental das pessoas, a partir da Organização das Nações Unidas, que culminou com a Declaração dos Diretos Humanos.

Hoje a Constituição Federal de 1988 traz alguns artigos com garantias e direitos fundamentais da pessoa humana; há o Estatuto da Igualdade Racial; uma série de legislação construída a partir da pressão dos movimentos sociais. Mas, diz a especialista, “é preciso continuar pensando políticas de afirmação e valorização do povo negro, como a que está acontecendo hoje neste Sindicato, para que esta população seja ouvida. Vivemos numa sociedade em que protegemos os nossos animais de estimação, que são sujeitos de direito, e os jovens negros são tratados como animais, a população negra apesar de ser maioria ainda sofre com a discriminação. Onde estão os negros nos cargos de liderança, no acesso ao ensino, por isso, a política de cotas é fundamental e importante”, finalizou.

Na sequência, o Dr. Jorge Marques, advogado Cível, Trabalhista e Criminal, titular especialistas em ações indenizatórias em vários processos envolvendo injúria racial e racismo, incluindo o processo judicial do Quilombo dos Silva (Porto Alegre), fez relatos de diversos casos em que atuou, alertando para a necessidade e importância de mover ações para culpabilizar os racistas.

Durante todo o Seminário, as profissionais de tranças, trancista Litsey Pereira, e de Turbante, Cinara Ribeiro, apresentaram seu trabalho na prática a quem quis fazer mudança no visual. No final da atividade, foi servido um pequeno coquetel de confraternização aos participantes. O evento também foi transmitido ao vivo na íntegra pelo Facebook do Sindicato.

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Assessoria de Comunicação

06/12/2022 21:18:13

Nara Soter

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