Privatização do Correios poderá gerar um “apagão postal”

Os cerca de 700 mil brasileiros que vivem no Amapá, melhor do que ninguém, poderão dizer o que representa ter serviços públicos prestados por empresas privadas. Bem em meio a uma pandemia, a população do estado está há 11 dias sem energia elétrica ou com um precário sistema de rodízio, o que tem causado outros inúmeros problemas, como falta de água, desabastecimento e perda de mercadorias, paralisação de muitos serviços públicos e risco nos hospitais, que estão operando com geradores.

A responsável pela energia no Amapá é a empresa privada espanhola Isolux, que nem mesmo frente a uma tardia, mas ainda assim necessária decisão judicial, que deu três dias para a empresa resolver o problema a contar do sábado (7) tomou qualquer atitude.

Adivinha que terá que resolver o problema?

Como acontece sistematicamente nas privatizações, e estamos vendo isso no Amapá, os serviços públicos essenciais são entregues à iniciativa privada, que explora, lucra, demite a mão de obra qualificada para baratear, não investe em manutenção, e quando acontecem os problemas, é o poder público, com recursos públicos, e servidores públicos que têm que resolver os problemas. No Amapá, são técnicos da estatal Eletronorte  – que Bolsonaro/Paulo Guedes também querem privatizar – que foram chamados para resolver os graves problemas criados pela empresa espanhola, que não possuía material sobressalente, instrumentos, ferramentas e equipes especializadas disponíveis para esse tipo de ocorrência.

Vimos este filme também na tragédia de Brumadinho. A Vale, privatizada, negligenciou a condição de uma barragem que matou mais de 230 pessoas em nome do lucro. Até hoje, não há culpados presos pelas mortes, as indenizações prometidas pela empresa privada estão sendo escamoteadas e quem teve que se atolar na lama por meses, sofrer um verdadeiro terror psicológico resgatando corpos, foram, adivinhem, servidores públicos do corpo de bombeiros.

E ainda é bom lembrar na era privatista de FHC os sucessivos “apagões” e rodízios de desligamentos no setor elétrico, resultado das privatizações do setor da década de 90.

Falta luz, água e esperança

Para piorar o que já está ruim, há ainda um descompasso entre o que alega o governo e os órgãos responsáveis e o que diz a população. Enquanto em Brasília falam em rodízio e outras práticas para retorno da energia, a população acusa uma situação insuportável, um rodízio que nunca funciona e uma realidade que é a cara deste governo: privilegiar as elites em detrimento do povo mais pobre. Nos bairros mais ricos, a energia vem sendo restabelecida, enquanto nas periferias, o povo amarga sem luz, sem água e sem esperança de resolver o problema tão cedo.

Privatização no Amapá não é a única a dar problemas

Para especialistas do setor elétrico, todos os fatores indicam que a causa desta situação pode ter sido negligência da empresa, já que os equipamentos não deveriam ter falhado e, caso falhassem, o que é pouco provável, deveriam ter equipamentos sobressalentes para que voltassem rapidamente ao funcionamento, o que não aconteceu.

Mesmo tendo sido causado por uma descarga atmosférica, um fenômeno natural, não é aceitável que este tipo de evento deixe um estado inteiro sem luz por vários dias.

Empresas privadas que operam no Setor Elétrico em vários estados, principalmente a partir do governo FHV (quem não lembra dos “apagões” do setor à época) principalmente no setor de distribuição de energia, são constantemente alvo de reclamações dos consumidores. Em São Paulo a distribuidora italiana ENEL chegou a ser multada por fraudar indicadores de qualidade; em Rondônia a distribuidora privada Energisa foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembeia Legislativa, acusada de fraudar medidores de energia; em Goiás, a ENEL deixa cidades inteiras passando dias sem luz, produtores rurais tendo prejuízos milionários e até mesmo o abastecimento d’água de algumas cidades ficando comprometido.

Estes casos são lições importantes quando se fala em privatização. A “bola da vez” para ser privatizado é o Correios. E pela forma como são feitas as privatizações e pelo modelo de gestão que se estabelece, não há como não pensar num “apagão postal”, o que poderá deixar milhões de brasileiros isolados do mundo, sem receberem encomendas, livros didáticos, vacinas e até urnas eleitorais, além de não terem um Banco ou sequer aonde tirar documentos. Estes são apenas alguns dos serviços prestados hoje pelo Correios que, em centenas de municípios, são a única presença do Estado a atender as populações. 

Os problemas e os prejuízos para a população advindos das privatizações independem do setor. Não por acaso muitos deles, em diversos países, estão sendo reestatizados.

Assessoria de Comunicação

16/11/2020 19:15:14

Pin It on Pinterest