Seminário debateu a atualidade da Revolução Russa de 1917

Os aspectos históricos e as lições da Revolução Russa de 1917 foram alguns dos temas debatido no Seminário “Os 100 anos da Revolução Russa”, realizado pelo SINTECT-RS na tarde do sábado (18), na sede da entidade.

Durante cerca de três horas, o professor, historiador e escritor, Mário Maestri falou sobre “Da Revolução Russa aos dias de hoje: do socialismo à barbárie” e o integrante do ILASE (Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos), Denior Machado falou sobre “A atualidade da Revolução Russa”.

Na abertura dos trabalhos, o Secretário-Geral do Sindicato, Yuri Aguiar, destacou a importância do debate, especialmente neste momento, onde há um discurso da classe dominante de que o socialismo é “maléfico” para a classe trabalhadora. “Trata-se de um discurso para fazer com que os trabalhadores percam a esperança e se desmobilizem na sua luta pela construção de uma nova sociedade”, disse ele reforçando a necessidade de desmontar este discurso neoliberal.

Destino histórico

Primeiro a palestrar, o professor Mário Maestri resgatou os movimentos que levaram a Revolução Russa de 1917, o seu significado e como ela está presente em nossos dias, na nossa vida. “Não há mais dúvida que a história da humanidade tem como motor a luta de classe. Junto com o nascimento da burguesia nasciam também os trabalhadores, que tinham o destino histórico de superar as contradições da produção capitalista, acabando com todo tipo de exploração”, frisou.

Para o historiador, a transição do capitalismo para o socialismo era e é necessária, sob pena de chegarmos a definição de Rosa Luxemburgo, para quem a luta jamais foi entre os socialismo e o capitalismo, mas entre os socialismo e a barbárie. “Há uma degeneração social do capitalismo na sua fase senil que é incapaz de trazer qualquer coisa além de dor e miséria e até o desaparecimento da vida na terra”, alertou.

Maestri passou pela Revolução Francesa, a queda da Bastilha, a publicação do Manifesto Comunista e outros movimentos internacionais para chegar até a Revolução Russa. “O movimento operário se transformou numa grande força política da Europa e se acreditava que, através da Internacional, os trabalhadores fariam a revolução, superariam as contradições do capitalismo e acabariam com a história do imperialismo. Entretanto quando se espera que os partidos operários se levantem numa grande greve e digam não a guerra, muitas lideranças ficam a lado da burguesia, apoiam a guerra com a morte de um trabalhador por outro trabalhador. Os partidos haviam construído em seu interior interesses pela manutenção da ordem capitalista e acreditavam que o socialismo seria apenas a luta por reivindicações”.

No entanto, acrescenta, esta Revolução era necessária para a superação do capitalismo e ao contrário do que se esperava, ela não começou nas regiões ricas e industrializadas, mas numa União Soviética, onde mais de 70% da população vivia na miséria.  Dois grandes processos frustraram a revolução socialista mundial: a reação e intervenção de grandes nações imperialistas após a tomada do poder pelos operários com grandes exércitos e, em seguida, a instalação do facismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, consequência do desespero da classe dominante frente à Revolução operária e a sua tomada de poder.

Mesmo assim, apesar dos rumos da revolução e dos regimes totalitários, muitos países lutam pela libertação nacional e de seus povos. Continuava para os trabalhadores a ideia da necessidade de superar o capitalismo, como mostrou a revolução cubana, cuja contra reação foi a imposição de ditaduras em toda a  América Latina, como a do Brasil, já em 1964.

Tempos sombrios

Se em 1917 o Século se abria sobre o alvorecer da Revolução Russa, nos anos 90 o mundo do trabalho conhecia sua maior derrota que pesa sobre os trabalhadores até hoje, que foi a dissolução da União Soviética e dos estados de economia nacionalizada e socializada, com uma enorme maré neoliberal que se abate sobre todo o mundo, com privatizações desenfreadas, retrocessos incessantes às conquistas do trabalho, com influência sobre os partidos, os sindicatos, e principalmente com o descrédito das soluções socialistas. A fraternidade se desmoraliza, a solidariedade não tem mais valor, o feminismo se transforma numa palavra feia e a igualdade passa a ser um palavrão.

“O grande problema que vivemos até hoje, é que há uma contrarrevolução permanente que não cessa, que não para, o capitalismo está na sua fase senil, é um velho que necessita se alimentar do sangue e da carne dos seus herdeiros e o problema mais grave que se tem em nível mundial é que os trabalhadores deixaram de acreditar no seu programa como solução para os problemas da humanidade. Vivemos tempos sombrios que sentimos  na nossa carne, em todos os aspectos, e não só nós, mas  como um processo mundial. Estamos entranhados na barbárie, e no Brasil, neste momento, estamos vivendo uma escravidão moderna, que abrange todos os trabalhadores. Os trabalhadores têm que retomar sua proposta para a sociedade. A tarefa histórica se mantém, como em 1917. Se os trabalhadores não se levantarem e não se colocarem como solução para a humanidade, vamos nos afundar progressivamente na barbárie que atingirá a todos. É isso que os nossos companheiros de 1917 estão nos dizendo”, finalizou.

Por que discutir a Revolução Russa?

O segundo palestrante, Denior Machado, iniciou a sua fala questionando os participantes sobre por que discutimos a Revolução Russa? Segundo ele, este debate é uma necessidade, já que o episódio divide a história e nos deixa muitas lições.  “Para muitas correntes de esquerda, a Revolução Russa é uma curiosidade histórica, superada, e que, no século XXI, não temos uma grande herança desta revolução a não ser a experiência, mas isso não é bem assim”, pondera ele.

Para Denior, o movimento operário existe antes e depois da Revolução Russa e não pela derrota do czarismo, onde assumiu um governo de coalisão, mas pela revolução que colocou um Conselho de camponeses, operários e revolucionários a dirigir uma Nação. “Quem haveria de crer que os de baixo estavam no poder. A imprensa perguntava quantos dias, quantas semanas, quantos meses, até que desistissem. A burguesia não acreditava, já que se acha o único valor humano da sociedade. Jamais passaria pelas suas cabeças que os trabalhadores pudessem estar na direção de um Estado. Os operários russos mostraram que a burguesia pode ser derrotada. Mais de 14 exércitos de diferentes nações capitalistas e imperialistas invadiram a União Soviética para derrotar a Revolução e foram derrotados pelo Exército Vermelho”, afirmou.

Segundo o palestrante, o que temos de experiência, é que, de fato, o governo operário foi derrubado, mas também mostra o que é possível fazer. Foi um governo que gerou o maior desenvolvimento da economia e da cultura que nenhum país capitalista conseguiu. A Rússia tinha 90% de camponeses que trabalhavam com métodos da idade média, com 80% de analfabetos, se falava 147 idiomas. Em menos de 20 anos acabou o analfabetismo; as escolas passaram de 30 mil para 62 mil escolas em um ano e meio; havia 10 mil bibliotecas e passou para 100 mil biblioteca; o país da agricultura atrasada passou a ser o maior produtor de trator; os camponeses miseráveis moravam em cabanas e a Rússia passou a ser o maior produtor de cimentos para construir moradia para todo o povo russo; Moscou passou a ter 271 grandes teatros. Parecia milagre que em poucos anos um país tão atrasado pudesse se transformar em uma potência, mas não houve milagre, o que houve foi uma revolução. “Se planificou a economia de acordo com as necessidades do povo e não dos capitalistas, que são uma minoria. Se um país atrasado pode se desenvolver e se transformar num país avançado, isto mostra que os capitalistas são parasitas que habitam o corpo social e na medida em que se tira estes parasitas, o corpo passa a se desenvolver de forma ininterrupta”, frisou.

Para ele, é natural que depois de algumas derrotas os trabalhadores fiquem desanimados, o que dá espaço para que alguns setores reforcem que o melhor é não lutar, que a participação da base não é mais tão necessária, com a consequente fragilização da luta contra o imperialismo.

Mas, diz ele, “a história não foi em vão, mostra que o socialismo tem chances de vitória. Quando os socialistas falam seu programa, os ideólogos da burguesia dizem que é impossível, que a Revolução Russa acabou. No entanto, ela nos mostrou que é possível enfrentar a opressão as mulheres, que o socialismo não é utópico e não tem nenhuma lei que diga que não se pode repetir as experiência dos trabalhadores no poder”.

De acordo com Denior, a revolução de outubro na Rússia não é uma experiência ultrapassada, é mais necessária hoje do que em 1917. “É difícil, mas tudo na vida do trabalhador é difícil. O importante é que ela é possível, mas para isso temos que mudar o rumo da maioria da esquerda que busca a conciliação com os capitalistas. Estes momentos, quando o capitalismo leva a humanidade próximo à barbárie, podem gerar uma nova onda. Recentemente, os trabalhadores do Brasil fizeram a maior greve geral dos últimos 30 anos, e existe uma disposição de luta e a possibilidade de que a gente saia deste momento. E a grande tarefa é retomar o caminho revolucionário, que tem tudo a ver com a experiência da Revolução Russa”, finalizou.

No final das atividades foi realizado um momento de confraternização com música ao vivo.

Assessoria de Comunicação

20/11/2017 10:42:30

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