Roubo de encomendas e acesso a dados dos remetentes: carros dos Correios são alvo de quadrilhas no RS

Os carteiros passaram a ter, nos últimos anos, preocupação com a segurança que não se limita a assalto a servidores que fazem entregas a pé. Quadrilhas especializadas passaram a mirar os carros da empresa para roubar encomendas, como celulares, notebooks, cartões. Segundo registros da Polícia Federal (PF), a área que mais concentra este tipo de crime inclui mais de 80 municípios da Serra, vales e Região Metropolitana. Apenas nestas regiões, houve um aumento de 51% em 2018, se comparado ao ano anterior, nos casos em que veículos foram assaltados: passou de 45 para 68 crimes. Se levado em conta ainda os números de furtos, o crescimento foi de 39% em relação a 2017. 

Os crimes nos quais as agências dos Correios foram alvo tiveram redução na região considerada de maior incidência de crimes contra a empresa. Se somados furtos e roubos, passaram de 46 casos em 2017 para 37 em 2018, o que representa uma diminuição de 19,57%.

Mais do que números, por trás destes ataques há vítimas em risco constante. Um carteiro que trabalha sozinho em um veículo e faz entregas na zona norte da Capital foi assaltado 12 vezes nos últimos 10 anos. Cinco dos ataques aconteceu em 2016. O profissional, que pediu para não ter o nome divulgado, teve de ficar um ano em tratamento após depressão e pânico. No último roubo, chegou a ser agredido e ameaçado.

— Me bateram porque estava na última entrega e não tinha quase nada na viatura. Foi quando um deles disse que iria atirar em mim e atirou. Meu Deus. A arma apontada para mim falhou e o comparsa dele pediu para ele desistir. Botei a mão na cara e pensei: estou morto — relembra. 

Atualmente, o carteiro não trabalha mais na região da zona norte da Capital, onde acontece maior número de casos, conforme dados da PF. Teve de ser afastado temporariamente do serviço após o assalto mais recente e precisou fazer tratamento psiquiátrico. O carteiro conta que em um dos ataques sofridos foi reconhecido pelos assaltantes que já o teriam roubado em outra ocasião. 

Levantou a camiseta pra mostrar a arma e disse: “tu já sabe como é”. Nem anunciou o assalto.

Assim como no caso do primeiro carteiro, um colega dele, que também trabalhava na região da zona norte de Porto Alegre, diz que os criminosos atuam em duplas. Com um veículo roubado, eles forçam a parada da viatura dos Correios. Um deles entra no veículo e, apontando um arma para a vítima, manda seguir o carro dos ladrões. A vítima disse que já foi assaltado cinco vezes desde 2017 e que já levou vários chutes enquanto dirigia, sempre com uma arma apontada para a cabeça. 

— Em um dos casos, mandaram que eu me ajoelhasse no chão e botaram a arma na minha cabeça. Foi horrível, só via a imagem da minha família — ressalta. 

Por causa da depressão, ficou quase dois anos afastado da função. Os roubos, segundo relato da vítima, acontecem com maior incidência em bairros da Zona Norte com rotas de fuga para outras cidades. Ele reclama da segurança. Diz que seria necessário reforçar a segurança das viaturas, tendo no mínimo dois carteiros atuando juntos.

Estratégia policial

Para tentar frear este tipo de ação, a Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio (Delepat) da Polícia Federal intensificou, desde o início do ano, as investigações em relação aos ataques a veículos dos Correios em 87 cidades da Serra, Litoral, Vales do Sinos, Caí e Paranhana, além da Região Metropolitana e alguns municípios do Sul, como Tapes e Camaquã. Estas são as regiões de atuação da delegacia especializada e é justamente a área com maior incidência deste tipo de delito. 

As medidas foram adotadas devido ao aumento dos casos em 2018 na comparação com 2017, com ênfase na zona norte da Capital. A prisão de uma quadrilha, ainda no ano passado, fez com que as ocorrências de furtos e roubos em agências na região  diminuíssem. Segundo o delegado Robson Robin da Silva, da Delepat, a estratégia de combate a este delito foi aprimorada, com a troca de informações com a Brigada Militar e a Polícia Civil. Foram deflagradas nos últimos anos oito operações denominadas “Correio Seguro”. Já são pelo menos 25 presos, todos integrantes de uma quadrilha do Vale do Sinos, que foram responsáveis por pelo menos 15 ataques. No entanto, para o delegado, a segurança precisa ser reforçada nas agências. 

Em 2019, a principal quadrilha que atuava no Rio Grande do Sul, especialmente na zona norte de Porto Alegre, foi desarticulada pela PF.  Com as prisões, inclusive a de um ladrão, em janeiro, com sete antecedentes por roubos a viaturas dos Correios, o número de casos mantiveram-se estáveis neste ano. 

A PF lembra que estes veículos têm sido alvo porque levam cartões e dados pessoais que podem ser revendidos para estelionatários, além de mercadorias. Algumas empresas não estão mais enviando materiais via Correios devido aos prejuízos com os roubos. Na zona norte de Porto Alegre, o pico dos casos no ano passado foi de setembro a dezembro. Em apenas um dia, foram quatro roubos.   

 — Nós estamos enfatizando o roubo a carteiro motorizado e a nossa preocupação, baseada em estatística, é com a zona norte da Capital, como Rubem Berta, Sarandi, bem como áreas lindeiras em Gravataí, Cachoeirinha e se estendendo até Viamão. Esperamos ter a mesma eficácia que tivemos com os roubos a agências porque agora é a vez da PF — ressalta Robin.
Sindicato dos carteiros

O Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos do Estado (Sintect-RS) afirma que não tem dados oficiais sobre ocorrências porque não recebe da empresa. Os ataques a agências diminuíram, segundo o sindicato, devido a prisões e ao fim do contrato sobre o chamado banco postal em algumas cidades. Este sistema só ocorre agora em agências dos Correios em municípios onde não tem Banco do Brasil. 

O Sintect-RS tem exigido mais condições de segurança e orientado em relação aos direitos em caso de assaltos. João Augusto Gomes, do Sintect-RS, diz que a tensão diária continua, mesmo não tendo aumento nos roubos. 

— A iminência de ser vítima de assaltos mantém o trabalhador numa tensão diária. Na maior parte das vezes, esses assaltos são à mão armada, trazendo um risco de vida para os trabalhadores. Infelizmente temos inúmeros trabalhadores que já foram agredidos, ameaçados e humilhados durante os assaltos — explica Gomes. 

Nota da Empresa de Correios e Telégrafos

“Considerando a estratégia de uma política de segurança que envolve pessoas, patrimônio e fluxos postais, os Correios investem em serviços como de vigilância, alarme, circuito fechado de televisão, rastreamento, monitoramento e escolta. Os critérios de cobertura, de riscos e de especificações dos diversos fatores abrangidos por essa política são revistos todos os anos, gerando também a renovação constante de equipamentos e a atualização de treinamentos e estruturas. 
Somente no ano passado, a empresa realizou investimentos na ordem de R$ 4,6 milhões em recursos na área de segurança no Rio Grande do Sul. Os Correios ainda desenvolvem ações preventivas em parceria com os órgãos de segurança pública, tanto em nível estadual quanto federal, para investigar e coibir os assaltos. Com isto estabelece-se uma rede de contatos com instituições como Polícia Federal, Brigada Militar, Guardas Municipais e Polícia Civil, particularmente com os segmentos de narcóticos e roubo de cargas. Para a empresa, essas ações conjuntas estão ajudando a reduzir ocorrências como roubos, furtos e vandalismo.  
A área de segurança dos Correios não divulga dados relativos aos delitos que afetaram a empresa. 
Através do monitoramento por raio X, os Correios também contribuem com as autoridade de segurança para inibir a circulação de objetos proibidos, como armas, drogas, dinheiro falso e contrabando.
Sobre o contrato com o Banco do Brasil, vale destacar que ele continua vigente. O que ocorreu em 2018 foi o redimensionamento da rede de agências que atuam com o Banco Postal.
Em relação aos empregados vítimas de assalto, o procedimento adotado nos Correios envolve algumas medidas. Inicialmente, uma equipe vai até a unidade para realizar os primeiros acompanhamentos. Depois, dependendo do caso, os empregados podem ser encaminhados para o serviço de saúde psicossocial para os tratamentos que se fizerem necessários”.

Fonte: Zero Hora/Agência RBS

18/04/2019 20:39:34

 

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